Palco de horrores na A25 fez bombeiros chorar para dentro

“Os homens também choram?” A eterna pergunta vai continuar sem resposta objectiva. Mas, no caso dos bombeiros que socorreram as vítimas do brutal acidente na A25,

na segunda-feira, tudo indica que sim. Os “soldados da paz” contêm-se. Choram para dentro.

“Parecia que tinha caído uma bomba e destruído aquilo tudo”. Fernando Lourenço, 41 anos, bombeiro há 25 anos, adjunto de comando na corporação de Sever do Vouga, foi o primeiro graduado a chegar ao local do acidente na A25, na segunda-feira, tendo orientado na primeira hora, as operações de socorro até à chegada de António Machado, comandante distrital de Aveiro de operações e protecção civil.

Fernando Lourenço, que chefia uma equipa de intervenção permanente, levou com ele duas ambulâncias e um carro com material de desencarceramento, num total de nove homens. Os primeiros a chegarem. Recorda: “Íamos para um acidente de viação, chovia, estava nevoeiro.

Quando entrámos na A25, vimos muitos camiões parados, mas quando lá chegámos, parecia que tinha caído uma bomba”. “Era uma cenário de guerra”, conta, confessando a sua impotência instantânea perante o que viu. Gritos, pedidos de socorro, uma dúzia de veículos em chamas, carros amontoados e feridos por todo o lado.

Apesar de já ter vivido uma situação dramática, quando há anos esteve quase cercado pelo fogo, em Oleiros, Fernando Lourenço afirma que o que viu “é uma coisa que nunca mais se esquece”.

“No primeiro dia custou-me a adormecer, porque ainda não tinha caído na realidade, mas agora falamos e tentamos ultrapassar a situação”, refere, sublinhando que, no dia a seguir, recusou ajuda psicológica. Fernando Lourenço e os seus homens abandonaram o local depois das duas da madrugada.

Paulo Teixeira, segundo-comandante dos Bombeiros Voluntários de Vouzela, coordenou durante quase 11 horas as operações de socorro no segundo acidente registado na A25 (sentido Viseu/Aveiro).

Quando regressou a casa, às três da manhã do dia seguinte, o primeiro impulso foi ver os filhos. “As últimas horas tinham sido muito sofridas. Contidas. Foi preciso dar força e ânimo a quem estava a meu lado. Mas, ao chegar a casa, tive de ver os meus filhos. A minha cabeça estava cheia de imagens que nunca esquecerei. Ninguém devia morrer como aconteceu ali”, desabafa.

O caso do pequeno João, o menino de quatro anos, residente em Viseu, que esperou algum tempo para ser desencarcerado com o irmão morto ao lado e o pai à frente, inanimado, deixou marcas.

Pai exemplar

“Um pai exemplar. O filho mais novo estava na cadeirinha. O de 8 anos, que sofreu morte imediata, no banco elevatório. Ambos atrás. Cumpriam todas as regras de segurança. É injusto. Temos de ser fortes para ver o que vimos. Aquela criança tem de ser muito acompanhada para curar as feridas deste desastre”, diz Paulo Teixeira.

A secção avançada de Campia dos Voluntários de Vouzela, por estar a escassos quilómetros da A25, foi a primeira a chegar ao palco de horrores em que a A25 se transformou. “O apelo era para um acidente com veículos incendiados.

Quando lá chegámos, eram dois, em sentidos opostos, ainda que quase simultâneos e próximos um do outro”, lembra. Coordenar homens e veículos, num cenário de caos, não foi fácil. “Os homens têm vontade de avançar, mas nem sempre é possível. Estava tudo bloqueado.

Os sobreviventes pediam ajuda. Era preciso abrir corredores. A nossa primeira ambulância, já com um ferido, furou um pneu nos destroços. Tivemos de pôr bombeiros a varrer a estrada. Acho que estivemos à altura. Se o socorro fosse planeado, provavelmente não corria tão bem”.

Aos 41 anos (23 passados nos bombeiros, 13 dos quais em funções de comando), Paulo Teixeira, reconhece que há cordas de nevoeiro em Talhadas, e sugere mais informação antecipada.

Fonte: JN

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